Uma reflexão sobre a entrega dos filhos em adoção pelas mães biológicas
Por Lara Patrícia Wunderlich
A ideia de desenvolver uma pesquisa sobre as questões referentes às mães que entregam seus filhos para adoção surgiu pelo meu envolvimento com o Grupo de Estudos e Apoio à Adoção na cidade de Joinville (GEAAJ) desde 2004. Nosso trabalho voluntário dedicado à causa da adoção já conquistou o respeito e o reconhecimento da comunidade, inclusive no âmbito acadêmico. Na mesma instituição em que me formei como psicóloga, inicialmente entrelacei algumas questões referentes à adoção sob forma de apresentações de trabalhos aos alunos do curso de psicologia, como o projeto “Falando sobre Adoção”. Nesse percurso, observei a falta de trabalhos no meio científico sobre as mulheres que entregam seus filhos em adoção, os motivos da decisão, os fatores que neste sentido influenciaram e qual o significado da separação dos filhos.
Como psicanalista, além de pesquisar as possíveis influências na decisão das mães biológicas em doar um filho e tentar responder a tal questão, a proposta foi desenvolver um trabalho que procurasse contemplar não somente o desejo de não exercer a função materna, mas também o trabalho de escuta como um todo, com as especificidades e a subjetividade que são próprias de cada história, propiciando assim “um lugar” a essas mães biológicas cujo desejo manifesto foi entregar um filho em adoção. Considerei então o valor de cada história em sua singularidade para analisar os motivos conscientes e inconscientes que levaram as mães ao ato de doar.
Com o apoio do Fórum da comarca de Joinville, em Santa Catarina, contei com a participação de mães que tinham entregado seus filhos em adoção no mesmo local. Minha pesquisa bibliográfica foi complementada por estudo exploratório, e a escuta da história destas mulheres/mães auxiliou no desejo de se poder dizer algo sobre elas.
Na pesquisa, os fatores econômicos indicaram uma classe econômica baixa – mas não foi este o único motivo que levou à doação de um ou mais filhos, pois se acentuou na minha escuta a posição subjetiva revelada através das falas das mães a respeito da herança deixada pelas marcas constitutivas da relação com suas próprias mães. A dificuldade em exercer a função materna das entrevistadas foi atravessada por seus próprios conflitos internos e pelo sentimento de rejeição e abandono quando crianças. Consequentemente projetaram externamente algo que está presente em sua subjetividade; ou seja, na sua posição materna reatualizaram o abandono vivido na infância.
A partir desse pressuposto, a doação de um filho pode ser uma expressão singular das trocas afetivas entre as mães biológicas da pesquisa e suas próprias mães. O ser mulher e o ser mãe e a relação com seus filhos guardaram nítidas relações com aquilo que foi vivenciado na condição de filhas, e a construção da função materna parece ter sido influenciada pela história familiar de cada uma.
Outro fator observado foi o papel do lugar que as crianças entregues em adoção ocupavam para essas mães, o qual, levando-se em conta a narrativa consciente, apresentou variações para cada uma das entrevistadas. Porém, ao lançar um olhar mais subjetivo, contemplando os significados inconscientes, todas as crianças eram frutos de relacionamentos sem vínculo de afeto.
Apesar desse aspecto comum em entregar seu filho em adoção entre as mulheres entrevistadas, existiram sentimentos que as diferenciam – e um deles é o amor materno e o desejo de exercer a função materna mesmo se os filhos foram gerados “acidentalmente”. Sabemos que, para a psicanálise, se a mulher tem um filho é porque houve um desejo em tê-lo – mas nem todas as mulheres que entregaram um filho em adoção o fizeram sofrendo intensamente a dor da perda, pois não desejaram efetivamente exercer a função materna. Entretanto, quando este desejo existe e é atravessado pela impossibilidade objetiva de exercê-lo, a entrega do filho é marcada pela dor da perda e pelo sofrimento. Ou seja, a decisão da mãe em entregar um filho para adoção pode ter vários significados, desde a aceitação da impossibilidade de criá-lo, sua rejeição em relação ao seu filho por seus próprios conflitos internos ou o desejo de não exercer a função materna.
Sob a ótica da psicanálise, pode-se deduzir que maternidade e gestação não são absolutamente a mesma coisa. Não se pode dizer que o processo de tornar-se mãe é adquirido a partir da gestação. É preciso compreendê-lo a partir da constituição subjetiva da mulher que engravida com sua própria história singular: a que desejo remete o desejo de se ter um filho, a relação com as figuras materna e paterna, suas identificações com a própria mãe e o lugar que tem o pai e o homem na vida destas mulheres. São estas questões que a psicanálise contribui para responder que lugar a maternidade, e cada criança, vêm ocupar para essas mulheres – e como cada mulher responde ao enigma do feminino, já que o feminino e seu enigma correspondem à subjetividade da cada mulher.
Com o olhar da psicanálise espero ter esclarecido alguns questionamentos que até agora encobriam o tema, e ter também propiciado alguma compreensão da situação da mãe que entrega um filho, da relação que existe ou não entre mãe e filho e um certo entendimento intrínseco do sistema familiar e social no qual a mãe que entrega um filho para adoção esteve e está incluída, respeitando sempre a singularidade de cada situação.
Sabemos que o processo de adoção revela-se como um dos mais importantes na área da Infância e da Juventude, visto que objetiva a colocação de uma criança em família substituta de forma definitiva e irrevogável. Para tanto, é claro, aponto a necessidade de preparação e qualificação dos profissionais para que não sejam assumidas atitudes preconceituosas ou pautadas em “boas intenções”, mas cientes do real conhecimento acerca da situação tratada.
Infelizmente, o preconceito e pontos de vista sem a necessária reflexão teórica e metodológica ainda permeiam muitos espaços por onde passam estas mulheres. Preconiza-se incessantemente no processo de entrega em adoção a defesa dos interesses da criança (ECA), e o posicionamento mais comum dos profissionais diante das mães biológicas é o de que elas não têm a mesma importância que o filho. Atualmente, a doação de um filho é simbolizada pela “rejeição e abandono de uma criança pela mãe”. É preciso desmitificar essa associação genérica entre adoção e abandono. Ainda, preconiza-se muitas vezes manter o vínculo com a mãe biológica a qualquer preço. A permanência de mães com um filho sem que esta tenha condições externas, internas ou ambas para fazê-lo, pode levar as mães a abandonem seus filhos em outro momento, favorecendo a ocorrência do problema da adoção tardia e colocando em risco o desenvolvimento afetivo do bebê.
Considerando tais fatores, pode-se verificar que a ausência de elaboração adequada na doação de um filho pode explicar alguns casos nos quais o ciclo abandono-adoção tende a se repetir, pois, das mulheres entrevistadas, apenas uma doou um único filho. Esta ocorrência aponta para a necessidade de favorecer um espaço onde seja possível escutá-las. .
Para essas mães, concordar em participar da minha pesquisa falando individualmente sobre sua história pode ter se configurado como uma oportunidade de refletir sobre seus sentimentos e percepções. Trabalhar na escuta a partir das palavras (ou do silêncio) possivelmente representou para elas um momento de reflexão, possibilitando uma elaboração para uma nova direção.
Como bem disse Lacan: “O discurso freudiano trilha, no enunciado do problema ético, algo que por sua articulação permite-nos ir mais longe do que nunca se foi naquilo do que é o essencial do problema moral”.
Lara Patrícia Wunderlich é psicóloga, psicanalista e voluntária do GEAAJ. Participa de fóruns de debates para discutir o assunto da adoção, encoraja iniciativas de políticas públicas e sociais na construção de projetos institucionais de acompanhamento às mães e desenvolve projetos na criação de grupos de orientação aos profissionais, promovendo assim aceitação e apoio social às mães que entregam seus filhos em adoção.
Email: larapatricia@holos.org.br